quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

ENERGIA E DESENVOLVIMENTO


O Plano Nacional de Energia 2030 não cria nada novo, apenas replica o planejamento iniciado nos anos 1960, sob a égide da CANAMBRA, empresa consultora canadense, que projetou mais de 600 hidrelétricas para as nossas províncias hidrográficas até meados deste século.

Energia e desenvolvimento são dois termos indissociáveis, da mesma forma, vida e energia. Informações quantitativas do uso de energia são um dos indicadores sobre a qualidade de vida em uma Nação, região ou comunidade, podendo reunir dados sobre a necessidade diária de calorias que o ser humano deve consumir.
A quantidade mínima de energia para que uma pessoa adulta permaneça viva é em torno de um mil kcal (1 kcal = 1 000 calorias), conforme uma dos nossos renomados cientistas e autoridade em Matriz Energética, o Dr. José Goldemberg. Para uma pessoa envolvida nas suas atividades normais, seu consumo cotidiano chega perto de dois mil kcal diárias. Para o trabalhador que realiza um trabalho pesado, são necessárias quatro mil kcal por dia. Ou, em escala macro, os indicadores de oferta e de demanda de energia como suporte para a dinâmica social e econômica, traduzidos na Matriz Energética Nacional, espelho da Política Energética Nacional em vigor.
Para as devidas comparações sobre os usos de energia utilizaremos como unidade representativa dos mais diversos tipos de energia, a tEP (Tonelada Equivalente de Petróleo = é aproximadamente equivalente à quantidade de calor existente em uma tonelada de petróleo cru, que por convenção, é igual a 10 000 kcal.kg-1).
O consumo de Energia Primária (Produtos energéticos providos pela natureza na sua forma direta, como o petróleo, gás natural, carvão mineral, resíduos vegetais e animais, energia solar, eólica, dentre outras) nos países industrializados chega, em média, a 5 tEP por pessoa/ano, enquanto nos países em desenvolvimento este valor é de 0,85 tEP. No Brasil, o consumo médio é de 1,2 tEP por pessoa/ano.
O consumo de mundial energia cresceu em média 2% ao ano no período compreendido de 1960 a 1990, com acentuado contraste entre os crescimentos nos países desenvolvidos e nos emergentes. O consumo nos países 30 países mais ricos, integrantes da Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Económicos (OCDE) se estabilizou em 1990, no patamar de 4 000 milhões de tEP anuais, crescendo a partir deste marco, a uma taxa inferior a 1% ao ano.
Na outra vertente, o consumo tem crescido a taxas elevadas nos países emergentes, e vai continuar crescendo pelas seguintes justificativas:
  • Crescimento populacional em torno de 2% a.a., que no conjunto de todos os países emergentes, tem sido responsável por 50% do crescimento anual do consumo de energia.
  • Crescimento econômico, que, na maioria dos países emergentes (exceto de alguns países africanos), é um resultado da independência política, integração na economia mundial e acesso à informação via rádio e televisão.
A associação destes dois fatores registrou um crescimento do consumo de energia comercial de 4% a.a. nestes países. O consumo de energia nos países em desenvolvimento continuará crescendo nestas próximas décadas, com projeções que em 2020 o consumo ultrapassará o dos países da OCDE. Também, estudos projetam a necessidade anual de 3 tEP por pessoa/ano como meta a ser atingida para que as Nações emergentes ofereçam para a sociedade, os benefícios para que tenham uma melhoria substancial em sua qualidade de vida. Se a Matriz Energética Mundial de Fontes Primárias permanecerem inalterada, este fato se traduzirá na emissão de poluentes, especificamente do CO2 oriundo da combustão de combustíveis fósseis.
Este é um grande desafio aos planejadores estratégicos engessados por paradigmas tímidos e conservadores, ancorados em uma Matriz Energética ultrapassada e insustentável, e sem contabilizar os custos sociais. Deteremos-nos desta vez, na Matriz de Energia Elétrica, alimentada majoritariamente pela hidroeletricidade.
A Academia (as Universidades) acena para a necessidade premente de investimentos em pesquisas que tornem os usos energéticos alternativos, mais rentáveis, e ao mesmo tempo, a criação de novos conceitos e dimensionamentos para o uso racional de energia de forma sustentável, pois, o Plano Nacional de Energia 2030 não cria nada novo, apenas replica o planejamento iniciado nos anos 1960, sob a égide da CANAMBRA, empresa consultora canadense, que projetou mais de 600 hidrelétricas para as nossas províncias hidrográficas até meados deste século.
Fontes energéticas alternativas estão disponíveis para comporem uma Matriz de Energia Elétrica sob a ótica do desenvolvimento durável. Em primeiro lugar, o Brasil ocupa uma grande área na Região Tropical, que recebe irradiação solar durante uns 300 dias por ano. Esta posição geográfica é traduzida em potencial bioenergético, disponível para todo o nosso planeta na ordem de 40.1012watts.
Saindo um pouco dos modelos tradicionais, o litoral maranhense tem uma amplitude de maré em torno de sete metros. No litoral norte de Portugal esta amplitude máxima chega a cinco metros e lá, se usa energia oriunda da maremotriz, isto é, de uma usina que gera energia elétrica a partir do movimento dos flutuadores causado pelas marés.
Outro fato importante são as áreas onde ocorre maior freqüência de relâmpagos, energia que poderá ser armazenada na superfície. Nos anos 1960 cientistas ingleses realizavam estudos sobre tecnologias para armazenar este gigantesco potencial energético e existem atualmente laboratórios com os mesmos objetivos.
Aliada a uma nova Matriz de Energia Elétrica, os estrategistas devem, paralelamente, implementar novos conceitos em infraestrutrura que reduzam sistematicamente o consumo de energia. Desde a concepção de edificações construídas no contexto do “edifício verde”, a fabricação de equipamentos com baixo consumo e excelente desempenho. Uma política de transporte que priorize a multimodalidade conforme os potenciais regionais, sem perder de vista o conceito de “continentalidade”, onde o planejamento e gestão requerem níveis de custo & benefício relacionados à tonelada transportada, por quilômetro, por consumo e tipo de combustível.
O setor transporte coletivo urbano deve pautar as idéias dimensionadas às escalas locais, com os mesmos conceitos regionais. Devemos restabelecer os trilhos; identificar rotas entre pólos com maior densidade demográfica, ou de serviços ou de indústrias; planificar moradias próximas aos locais de postos de trabalho, etc. Projetar também o uso intermodal no transporte urbano, com ênfase no conforto, na segurança e na qualidade, e com isso reduzir a frota de veículos automotores individuais.     
Abordei, desta vez, alguns aspectos gerais que requer um planejamento estratégico no setor energético como capítulo para um Plano de Metas governamental, instrumento fundamental de gestão pública para os executivos dos três níveis, como proposta da Academia para racionalizar o uso de energia e justificar a necessidade premente de uma nova Matriz de Energia Elétrica para o Brasil e para o MERCOSUL.
  • A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico ou Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Econômico (OCDE; OECD em inglês) é uma organização ingternacional dos países comprometidos com os princípios da democracia representativa e da economia de livre mercado. A sua sede fica em Paris, França. 
 Este artico (ensaio) teve como fonte principal a seguinte obra: GOLDEMBERG, José; VILLANUEVA, Luz Dondero; tradução André Koch. 2ª. Ed. Rev. São Paulo, SP: Editora Universidade de São Paulo. 2003.
Publicado no mês de outubro de 2009 – Coluna CIÊNCIA EM FOCO/JORNAL CAIÇARA “ON LINE”

Nenhum comentário:

Postar um comentário